sexta-feira, 30 de julho de 2010

Cala-te Boca.

Era uma boca cheia de palavras que tinha sua entrada por uma rua suja, estreita e torta e, que sabia pronunciar com excelência cada um dos vernáculos mais sujos que os ouvidos gostavam de ouvir. Era uma porta torta que dava entrada pra onde ninguém sabia. Uma boca que reproduzia com fidelidade cada expressão dos muitos livros que lera e que de tão fria fazia gelar minhas orelhas à quilômetros de distância.

Eu pedia a ela: - Fale...
E ela me respondia: - Durma.

Mas eu não podia dormir, estava acordado -alerta e absorto, tudo ao mesmo tempo- e assim ficaria por muito mais tempo do que desejaria qualquer ser noctívago que eu já vim à conhecer. Eu dizia "não tenho sono, não posso dormir, fale...", não respondia. Por que não me respondia? Eu mais do que queria, precisava, carecia ouvir tudo o que ela tinha pra dizer. Mas ela não dizia. E eu pedia, suplicava, quase implorava até gritar: "Fale, diga, só não deixe o silêncio"!
Então pude ouvir: "Olha-me, não posso falar sem teus olhos em mim".

Calei-me no ato!

Nenhum comentário:

Postar um comentário